Ucrânia devastada pela guerra aumenta a velocidade da internet em mais de 140%

Data de publicação: 25/06/2026

Apesar da guerra em curso, que teve início em fevereiro de 2022, a Internet na Ucrânia não só sobreviveu como registou um aumento significativo na velocidade. De acordo com dados da SpeedGeo, a velocidade média de download móvel aumentou de 17,3 Mbps (janeiro de 2021) para 42,4 Mbps (maio de 2026), enquanto a velocidade da banda larga fixa subiu de 27,9 para 71,3 Mbps — um aumento de aproximadamente 145% e 156%, respetivamente. No entanto, a linha de tendência ascendente apresenta quedas acentuadas e recorrentes que coincidem com momentos-chave da guerra: o início da invasão e as subsequentes campanhas de inverno de ataques russos às infraestruturas energéticas.

O relatório foi elaborado com base em 6,3 milhões de testes realizados através das aplicações de medição da velocidade da Internet www.speedgeo.net e da aplicação SpeedGeo.

O impacto da destruição das infraestruturas nas velocidades da Internet na Ucrânia

Ainda em 2021, as velocidades da Internet na Ucrânia cresciam de forma constante. A primeira e mais grave queda na qualidade da rede ocorreu no início da invasão russa, no final de fevereiro e início de março de 2022 (a verde claro no gráfico), quando várias centenas de estações de base ficaram fora de serviço devido a danos ou cortes de energia nas zonas de combate. Durante este período, a velocidade média da rede móvel desceu drasticamente de 20,6 para 14,1 Mbps (−31,6% num único mês), enquanto a banda larga fixa desceu de 35,2 para 30,2 Mbps (−14,2%). Isto destaca uma clara assimetria: a rede móvel foi afetada mais do dobro. 

A principal causa das quedas não foram os ataques diretos às torres, mas sim os ataques à rede elétrica. A partir do outono de 2022, a Rússia lançou campanhas cíclicas — tipicamente no outono e inverno — com mísseis e drones, visando centrais elétricas e redes de transmissão. Este impacto é visível nos dados sob a forma de «quedas» sazonais:

  • Inverno de 2022/23: a velocidade média móvel caiu de 18,8 (outubro) para 13,5 Mbps (dezembro) — uma queda de cerca de 28% —, enquanto a banda larga fixa registou uma diminuição de apenas cerca de 10%.

  • Meados de 2024: na sequência de uma onda de greves na primavera, a velocidade média desceu de 24,6 (maio) para 20,5 Mbps (julho).

  • Outono de 2025 e inverno de 2025/2026: novas quedas num contexto de tendência ascendente contínua.

Durante uma falha de energia, uma linha fixa equipada com o seu próprio UPS ou uma ligação de fibra xPON pode continuar a funcionar durante horas. Entretanto, o tráfego de alguns utilizadores simplesmente desaparece (sem alimentação no router = nenhum teste realizado, o que não reduz a velocidade registada). A rede móvel degrada-se de forma diferente: quando as estações base ficam sem energia e desligam-se, os utilizadores ligam-se a torres vizinhas sobrecarregadas, o que reduz significativamente a largura de banda nas células restantes.

A rede móvel reagiu a estes choques de forma muito mais severa do que a rede fixa — revelou-se muito mais vulnerável às falhas de energia. Como era de esperar, durante os picos de apagões, o número de testes de velocidade realizados pelos nossos utilizadores nas redes móveis mais do que duplicou. É o retrato de uma sociedade a verificar se ainda tem sinal.

No entanto, apesar da destruição estimada em cerca de 25% da infraestrutura de telecomunicações da Ucrânia, predomina uma tendência constante de melhoria na qualidade da rede. Esta evolução é impulsionada pela modernização, pelos leilões de frequências e pelos investimentos estrangeiros, todos eles, paradoxalmente, realizados em plena guerra.

O que ajudou a Ucrânia a manter a continuidade das operações de rede?

Logo no início da invasão, os três maiores operadores (Kyivstar, Vodafone, lifecell) lançaram o roaming nacional, permitindo que os telemóveis se ligassem automaticamente a outra rede após perderem o seu próprio sinal. As telecomunicações foram classificadas como infraestrutura crítica, a par do setor energético, o que garantiu, entre outras coisas, entregas prioritárias de combustível para os geradores. Os operadores equiparam as estações de base com baterias e geradores em grande escala. A solução mais engenhosa consistiu na utilização de veículos elétricos como fontes de energia móveis — um carro dirigia-se até uma torre sem energia e alimentava-a como se fosse um power bank gigante sobre rodas. É impossível não mencionar o trabalho dos especialistas na rede elétrica, que fizeram milagres ao reparar os danos contínuos nas centrais elétricas e nas redes de transmissão. O Estado também lançou milhares de «Pontos de Invencibilidade» — centros públicos que oferecem eletricidade, aquecimento, carregamento de dispositivos e Wi-Fi gratuito (muitas vezes através do Starlink). Em 2023, realizaram-se leilões para as bandas de 2100/2300/2600 MHz, o que desencadeou o aumento das velocidades observado em 2025–2026. O tempo necessário para a emissão de licenças para a construção de torres de rede também foi significativamente reduzido. O Starlink desempenha um papel fundamental para as forças armadas, embora, na perspetiva de um utilizador «comum» da Internet, tenha muito menos importância, uma vez que não conseguiu substituir a rede destinada ao mercado de massas. Além disso, os testes de 5G já tiveram início em cidades como Lviv e Kiev.

A Ucrânia ostenta uma Internet móvel mais rápida do que a Rússia e a Bielorrússia

O esforço dos ucranianos para manter a continuidade dos serviços de rede é melhor ilustrado pela comparação das velocidades de Internet entre janeiro e maio de 2026 em toda a Ucrânia, Bielorrússia e Rússia — nações criadas após o colapso da URSS. Poder-se-ia pensar que um país no seu quinto ano de guerra ficaria muito atrás dos seus vizinhos, mas nada poderia estar mais longe da verdade: a Ucrânia não está a ficar para trás, e, em alguns aspetos, está, na verdade, na liderança. Atualmente, os ucranianos desfrutam da Internet móvel mais rápida entre os três (37 Mbps) e ficam apenas ligeiramente atrás da Rússia no que diz respeito às velocidades de banda larga fixa. É uma situação extraordinária que uma nação sob ataque esteja a conseguir, de forma tão excepcional, manter uma infraestrutura de acesso à Internet totalmente operacional.